quarta-feira, 15 de maio de 2024

Memórias Desbloqueadas



A imagem é do décimo primeiro episódio da décima primeira temporada da série Modern Family. 
A série é uma sitcom de comédia, e o personagem da foto é o Phil, talvez o personagem mais engraçado do seriado. Mas esse episódio é muito diferente do habitual, Phil descobre que seu pai está passando por problemas de saúde e vai visitá-lo.  Assistindo a esse episódio, tive uma espécie de memória desbloqueada, e achei que deveria registrar esse momento. 

Como dizia minha queridíssima e saudosa amiga Raquel, "escrever é minha terapia muda, escrevo mais pra me ler do que pra ser lida." Mas esse texto não é sobre Modern Family, tão pouco sobre a Quelzinha.

Voltamos para fevereiro de 2002, feriado de carnaval naquele ano caiu no dia 12, então no sábado dia 9, minha mãe e meu irmão pegaram o carro e foram pra praia com uns primos. Meu pai e eu ficamos. Era um hábito quase que religioso do meu pai ir almoçar na minha avó os sábados e domingos. Nossa casa até a casa da minha avó não era longe, mas também não era muito perto, leva uns 40 minutos andando, como estávamos sem carro, pegamos a lotação que passava em frente e partimos. 
Chegando lá, almoço pronto, comida da minha avó sempre incrível. Terminamos de comer, meu pai foi pra sala assistir TV. Eu faço o mesmo alguns minutos depois, mas não paro na sala, saio pra garagem, abro o portão e fico na calçada por um tempinho, não aparece ninguém que poderia conversar, volto pra dentro e me sento no sofá ao lado do meu pai.

Ele segurava um jornal, e me perguntou: " -Você vai ficar aqui ou vai embora?" O que ele queria saber é se eu iria dormir na casa da minha avó ou se iria embora pra casa com ele. Esse foi o primeiro efeito borboleta dessa história que relato aqui. Pra dar o contexto dessa situação, eu tinha até aquele momento o hábito de dormir na casa da minha avó todos os finais de semana e férias escolares. Eu tinha tudo pra responder à ele que iria dormir por lá mesmo, meus amigos eram na grande maioria daquela rua, ainda tinha uma ficante que morava duas casas pra baixo, e que tempos depois virou namorada, além de gostar do ambiente da casa de meus avós, então como disse, tinha absolutamente tudo pra querer passar o feriado na casa da minha vó. Mas por algum motivo que não sei dizer qual, respondi: "Vou embora pra casa". Ele abre o jornal e diz: "A gente poderia ir no cinema, tem um filme do Schwarzenegger em cartaz, vou ver os horários aqui no jornal." Aí vai outro contexto, meu pai era muito fã dos filmes do Arnold e do Stallone, mas aquele convite em 18 anos de vida, nunca tinha acontecido. Não me entendam mal, meu pai sempre foi o melhor pai do mundo, sempre foi meu herói, sempre me levou pra cima e pra baixo, mas especificamente nunca tinha me levado com ele ao cinema, então topei na hora, sei que muito gente teve sua primeira ida ao cinema quando criança, mas a minha foi naquele dia 9 de fevereiro de 2002, poucos dias depois de completar 18 anos. Sei que ficamos mais um tempo na sala com minha avó e minhas tias, e logo ele levanta pra ir embora e eu levanto junto, Tia Santa até estranha: " --Ué, você vai embora?" Eu respondo que sim, minha avó que estava do lado diz: "--Ele não vai deixar o pai sozinho." Dou um sorriso com o canto da boca. 
Na ida ainda fomos de lotação,  mas na volta, voltamos a pé, no caminho ele para na frente de uma loja e pede pra eu esperar: --"Vou comprar uma toalha, sua mãe comprou umas toalhas que não secam."  Toalha comprada, andamos um pouco mais e ao chegarmos na praça da Toco, ele diz que quer passar na Blockbuster, era uma época onde os DVD's estavam em alta, então as locadoras também estavam no auge. Sei que ele pegou 3 filmes, Stallone Cobra, Mad Max e o outro não lembro. Ele me dá a carteirinha, uma nota de R$50, os DVD's e pede pra eu ir pro caixa enquanto ele iria esperar fora da fila.  Quando chegou minha vez na fila, fui atendido por uma moça sorridente, bonita, cabelo bem preto, que deveria ter no máximo uns 23 anos, e ela falava sem parar sobre os filmes, perguntava se já tinha visto sei lá qual filme que era lançamento, e até olhando no computador, perguntou se eu morava na mesma rua da locadora. Lembro de algumas perguntas, mas nunca das resposta que dava. Quando saí de lá, meu pai diz: "-- Nossa, a menina te atendeu bem hein, acho que você vai querer voltar aqui todo dia." Como sempre fui muito tapado pra essas coisas, não notei se a moça só foi simpática no atendimento ou se ela tava tentando puxar papo por algum motivo diferente.

Chegamos em casa ele fala pra eu já ir tomar banho, pra logo irmos pro cinema. Fomos de metrô, na plataforma esperando pelo metrô, lembro de perguntar: " --Falta quanto tempo pra você se aposentar?" Ele disse que restavam uns 12 anos no máximo, mas que iria ver se faria algo pra tentar aposentar em menos tempo. As 3 estações que separavam a Vila do Tatuapé, ele foi contando que estava cansado, estressado, que não via a hora de chegar março, pois sairia de férias e ia com minha mãe pra um hotel fazenda. Lembro de ter aprovado a ideia, sabia que ele gostava de mato, andar à cavalo, e etc.
Chegamos no andar do cinema, ele vai em direção ao Hall dos caixas eletrônicos, mas olhou pra bilheteria e falou: --"Não preciso tirar dinheiro, eles aceitam Rede Shop."  Compramos pipoca, refrigerante e fomos pra sala, lembro de ter achado o máximo o ambiente, tanto de fora quanto interno. O filme era Efeito Colateral, tinha a temática próxima do 11 de setembro, que havia rolado há poucos meses, filme que inclusive foi adiado o lançamento, justamente por causa do atentado.

Ao saímos do filme, ele estava mais empolgado que eu, além de ter curtido o filme, ele disse que na época em que ia ao cinema, era bem diferente, o som estava muito melhor e a qualidade da imagem era incrível. Aqui abro um parêntese pra dizer que imagino como ele ficaria nos dias atuais assistindo filmes em 3D, HD e etc.
Foi um momento único pros dois, pra mim que nunca tinha ido num cinema e pra ele, vendo a geração mais avançada dentro de uma sala de cinema. 
Saímos de ainda fomos no McDonald's do Shopping, conversamos sobre o São Paulo F.C . Em casa, lembro de termos jogado Speed Racer no Playstation 1 (sim, meu pai era gamer)  até ele ficar com sono e ir dormir.

No domingo o ritual foi o mesmo, almoçar na casa dos meus avós e voltar. Nesse dia assistimos Stallone Cobra, lembro que achei a cena do Supermercado surreal, e ele que já tinha visto o filme, também tinha gostado da cena. A noite não sei como o papo surgiu, mas ele começou a contar o porque a relação dele com meu avô Joaquim era tão distante. Desde que me conheço por gente, eles mal se falavam, trocavam uma palavra ou outra quando estavam à mesa almoçando, mas parecia mais com dois conhecidos falando coisas corriqueiras do que pai e filho. Ele já havia me dito por cima o que achava do meu avô, mas naquele dia ele me deu detalhes de sua época de infância e adolescência que eu não sabia, era uma relação fria, onde meu avô lhe tratava muito mal, com violência e indiferença. 
Nunca ouvi a versão do meu avô, mas a do meu pai, é que meu avô foi um péssimo pai. Lembro dele me contar e eu pensar que ele havia passado por tudo aquilo e era um pai maravilhoso, amoroso, amigo e muito presente pra mim e pro meu irmão. Ali foi mais um momento único, onde ele me expôs coisas que nunca havia me dito.

Não lembro direito da segunda, mas apareceu um amigo dele lá em casa, achei estranho, meu pai não era de levar amigos em casa, era um velho, meu pai saiu com ele, voltou uma hora depois dizendo que o velho veio pedir dinheiro. 

Na terça ele ficou no computador, estávamos na era Jurássica da Internet, acessar sites era o máximo, ainda estávamos na Pré-história das redes sociais, que chegariam dois anos depois.

Os dias se passaram normalmente, no final daquela semana, dormi na minha avó na sexta e fui embora com meu pai no domingo.

A semana começou normalmente, meu pai foi trabalhar e eu tava vivendo algo diferente, indo pra escola à noite, terceiro colegial, como fazia aniversário no inicio do ano, e já ter 18 anos, a escola me jogou pro horário noturno, era estranho ir pra escola sem precisar vestir uniforme e na minha sala tinha um monte de gente mais velha, pessoas que não puderam concluir o colegial, estavam fazendo naquele momento.

Na terça, (uma semana depois do feriado) ele chega do trabalho, e tinha o hábito de abraçar todos, ele faz o mesmo comigo, que já estava de saída pra escola, me perguntou quando o São Paulo ia jogar, falei que era só na quinta. Saí e fui pra escola. A aula acabou, volto e dou uma passada no quarto deles, minha mãe tava na cozinha e ele estava deitado assistindo TV. Não falei nada só o observei assistindo TV e fui pra sala. Na quarta-feira, ele passa mal no trabalho... em 96 ele havia tido um infarto que por muito pouco não foi fatal, naquela época ele fumava compulsivamente, depois daquilo, nunca mais acendeu um cigarro na vida, mas andava muito estressado com o trabalho, como já havia me dito no metrô.

Alguém o levou pro médico, onde ele havia tido um novo infarto, mas daquela vez tinha sido mais leve, tanto que ele estava andando e conversando como se nada tivesse acontecido, segundo relatou minha mãe, que tinha voltado do hospital pra pegar uma roupa, pois ele no outro dia iria precisar fazer um cateterismo, um procedimento pra desentupir uma artéria do coração. Meu irmão iria levá-la e ela me pergunta: " --Você quer ir?" Era por volta das 5 da tarde e eu se fosse teria que faltar na escola, e ali surgia o segundo efeito borboleta dessa história.  Simplesmente sem a menor explicação respondi: "Não, eu vou pra escola."  É fato que eu me apeguei no relato de minha mãe, que ele estava bem, iria fazer o cateterismo e voltar pra casa no dia seguinte. Meu irmão me disse depois que ele estava normal conversando normal, andando e foram até na lanchonete do hospital juntos.

Acontece que o dia de sua volta pra casa nunca chegou, no procedimento do cateterismo, ele teve sucessivas paradas cardíacas que o levou à óbito.

O que relatei sobre o efeito borboleta nas duas situações, foram escolhas não intencionais que fiz onde acertei e errei, comemoro e me penitencio na primeira e na segunda, respectivamente. Se eu tivesse dormido na minha avó naquele Carnaval, jamais teria passado aqueles momentos incríveis com meu pai que me lembro tão bem, com tanta felicidade.  Mas se tivesse respondido pra minha mãe que iria junto com eles pro hospital, teria um tempo final com ele, e acreditem, pra quem sente a falta dele todos os dias nesses 22 anos, aquilo me faria diferença ainda hoje. 
Infelizmente, meu pai não me viu em seus últimos momentos, eu não fui uma das últimas pessoas que ele viu, e essa culpa eu vou carregar até o dia que meu coração parar de bater.

O foda é que assim como o Phil em Modern Family, passei um dos melhores momentos com meu pai, sem ter a menor ideia que seriam os últimos. Talvez por algum capricho do destino, aqueles momentos precisavam ser a nossa despedida, e que assim como me culpo pela segunda escolha, vejo que a primeira foi uma das melhores que fiz na minha vida, sem ter a menor ideia em ambas, que iriam impactar tanto na minha história de vida até hoje.








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