Na parte 4 ainda na árvore do meu pai, falo da minha avó e seus 8 irmãos. Na verdade eram 9, uma delas faleceu com alguns meses de vida, minha Tia Santa mencionou que a chamavam de Nica.
Há uma divisão entre os 9 irmãos, mas que falarei no texto sobre meus bisavós, então começarei pelos mais velhos, e que infelizmente não os conheci.
Dolores, não tenho as datas de nascimento e óbito de Tia Dolores, mas por dedução de outros documentos, e por saber que ela era a mais velha, ela nasceu entre 1907 e 1908, e faleceu no final dos anos 60. Tia Santa tinha uma caixa cheia de fotos que infelizmente parte delas se perderam no tempo, ou está com alguém em algum lugar. Mas me lembro de na infância ver uma foto de Tia Dolores muito nova, ela lembrava bastante minha Tia Santa nessa foto. Lembro vagamente se seu marido, Ivo, que faleceu nos anos 90, conheci pelo menos 3 filhos do casal. Uma era a Cida, que ia pelo menos uma vez por mês visitar suas tias, que tinham quase a mesma idade que ela.
Tico, se chamava Antônio, mas todos os chamavam de Tico, meu pai sempre falava que gostava muito de seu Tio Tico, ele nasceu em Itapuí/SP em 1909 e faleceu em 1971. Teve 8 filhos com Caetana, lembro de ouvir muito o nome deles na casa da minha avó, mas nunca conheci ou não lembro de ter conhecido algum filho deles.
Miguel, nasceu em 1914, em Jaú/SP, eu não lembro dele, mas sei que morreu no final dos anos 80, ele é um dos que aparecem nessa foto, está agachado de camisa Rosa. Sei que foi casado e se separou, teve filho, mas não sei dizer quantos.
João, na foto está em pé, de camisa branca, era o mais alto da família. Não tenho sua data de nascimento, mas creio que seja entre 1920 e 1921, faleceu em 1985, eu tinha 1 ano de idade, infelizmente não tenho memórias dele, mas assim como falei de minha bisavó Ana, sei que ele me conheceu. Era casado com minha Tia Alaide, que está ao seu lado esquerdo, da Tia Alaide eu lembro muito bem, o casal teve 3 filhos. Meu pai dizia que o Tio João era o cara mais engraçado da família, todos os primos que conviveram com ele dizem a mesma coisa, era uma pessoa super divertida. Uma pena ter morrido antes de que eu pudesse ter alguma memória dele.
José, tio Zé não tá na foto, mas eu o conheci, nasceu em 1919 e faleceu em 1992. Algumas fotos dele quando jovem, pareciam com o ator Charlton Heston, casou com Maria e tiveram 4 filhos, não conheci tia Maria, mas eles tinham uma fazenda em Guaratinguetá que acabou ficando pro meu tio Zé, e seus filhos. Fui muito na minha infância nessa fazenda. Me lembro um pouco de o ver andando a cavalo de chapéu. Mas infelizmente a memória mais nítida que tenho dele é nas vezes em que íamos lhe visitar numa casa de repouso. Ele já não tinha muita mobilidade, lembro que íamos tia Santa, Tia Luzia e minha avó, ele fazia questão de me cumprimentar, lembro que mesmo deitado, levantava a mão pra eu lhe cumprimentar. Uma vez que eu não fui com elas, Tia Santa me disse que ele perguntou porque eu não tinha ido, se na próxima visita eu iria. Acho que ele foi a primeira pessoa que me lembro bem de quando faleceu, até o velório e enterro.
Isabel está na foto entre meu tio João e minha avó na ponta, nasceu em 1925 e faleceu em 1982, infelizmente não a conheci. Foi casada com Adelino, um cara muito gente boa, São Paulino, tinha uma ótima relação com meu pai. Teve 3 filhos, essa foto foi na garagem de sua casa, que ficava em frente a casa de minha avó e da Tia Santa. Meus primos por parte dela eram bem ligados a nós, sempre me dei muito bem com eles, mas dela mesma, só relatos de sua personalidade e as fotos que lembram bastante a minha avó.
Santa, Ozenia e Luzia, falo aqui das 3 ao mesmo tempo, pois elas eram inseparáveis, pelo menos era assim desde que me conheço por gente.
Tia Santa na foto está agachada ao lado do Tio Miguel. Se chamava na verdade Fuensanta, nasceu em Jaú em 1923 e faleceu em 2013. Não se casou, nem teve filhos, trabalhou 30 anos na fábrica Alpargatas e viveu sua vida inteira com suas irmãs.
Eu sempre vi a Tia Santa como uma mentora, alguém que tinha resposta pra tudo, que era uma espécie de líder na família. Mesmo já com mais de 70 anos, subia a ladeira da rua que morava diversas vezes ao dia, só parava a noite pra dormir. A casa em que elas moravam era dividida, no fundo moravam meus avós e na frente morava minha tia. Eu passava todas as minhas férias escolares e meus finais de semana lá. Meus amigos eram na grande maioria daquela rua, então é como se eu morasse também naquela casa. Mas a casa da frente era maior e eu dormia numa cama do lado da cama dela, e muitas histórias que sei sobre a nossa família, foi minha tia Santa que contava. Ela tinha um apego muito forte em suas irmãs, eram de fato inseparávei, e por ser a mais velha das três, era uma espécie de líder, pelo menos eu sempre vi dessa forma. Foi a última a morrer, claramente triste por não ter mais suas irmãs e seus contemporâneos com ela, foi embora aos 90 anos por falência renal.
Tia luzia na foto está atrás da tia Alaíde, no canto oposto da minha avó. Nasceu em Avaí/SP em 1930. Ela era sorridente e alegre, lembro bem de sempre a ver feliz, falava bastante também. Ela se casou com Manoel, argentino, que conheci já numa idade avançada, mas lembro bem dele, gente boa demais, tiveram 3 filhos. Ela morava em frente à escola que estudei por 10 anos, e todas as festas de família eram lá, comemorações de aniversários de qualquer uma delas eram feitas na casa da Tia Luzia. No início dos anos 2000 ela teve uns problemas de saúde e não podia ficar sozinha ou fazer coisas do dia a dia sozinha, então deixou sua casa e foi morar com Tia Santa e minha avó. Uma lembrança marcante da tia Luzia era a fé em Deus que ela tinha e ela não tinha nenhum dúvida sobre vida após a morte, a vi várias vezes falando sobre isso. Morreu em 2006 de câncer, sofria com muitas dores, coincidentemente ficou internada no mesmo período que meu avô faleceu e morreram da mesma doença no mesmo ano. Há quem acredite ou não mas há duas situações sobre esse tema de vida após a morte que posso contar aqui sobre a Tia Luzia. Uma delas é que no período em que estava internada, seu filho Odair e Tia Santa foram lhe visitar e ela estava deitada na cama olhando pra um ponto onde não tinha nada e conversava com meu Tio João, tia Santa disse que parecia mesmo um diálogo. Céticos podem dizer que era apenas um delírio, uma alucinação de um quadro de doença avançado. Mas nessa vida, nós acreditamos no que queremos e eu prefiro acreditar que Tia Luzia naquele ponto, já estava sendo recebida por seus entes queridos de um outro plano. Lembro que no seu velório, eu conversei com a Tia Santa e ela me disse que rezava todos os dias pra Deus fazer alguma coisa que lhe tirasse daquele sofrimento, que ela não aguentava mais ver dona Luzia sofrendo com aquelas dores.
Todos chamavam minha avó de Iracema, mas ela se chamava Ozenia, a explicação que ouvi um dia era que sua mãe, lhe chamava de Cema e suas irmãs faziam o mesmo, as pessoas associaram o nome Cema, diminutivo de Iracema, e foi aí que dona Ozenia foi conhecida a vida inteira como Iracema.
Minha avó Ozenia ou Iracema na foto está na ponta, do lado de sua irmã Isabel, que era a sua cara. Nasceu em Avaí, em 1927, faleceu em 2009. Se casou com meu avô Joaquim em 1957, tiveram um único filho, meu Pai Eduardo. Eu criança, nunca entendi o motivo de minha avó ser tão apegada na gente, ela naturalmente era uma pessoa muito carinhosa, muito doce, mas com meu pai, com meu irmão e comigo era diferente, ela fazia absolutamente tudo que podia pra nos ver feliz, sabia todos os nossos gostos, fazia na cozinha as coisas que mais gostávamos. Criava situações pra que tivéssemos o máximo de conforto e tranquilidade. Era uma dedicação fora do comum, ela escancarada seu amor por nós sem nenhuma vergonha. Acho que desde que se casou, não trabalhou mais, então sua vida era de total dedicação ao marido, irmãs, filho e netos. Ela torcia e acompanhava futebol e o São Paulo mais do que meu avô. A felicidade nossa era a felicidade dela. Pouco depois de fazer 82 anos, ela adoeceu, problemas respiratórios, infecção pulmonar... passou 90 dias num leito do hospital Incor. Íamos visitá-la semanalmente, sempre revezávamos, mas sempre tinha alguém em todas os dias de visita. Em uma dessa foi que aconteceu a segunda situação de vida após a morte, com minha Tia Luzia, que citei há pouco. Numa dessas visitas, minha tia Santa e eu chegamos lá e ela abriu um sorriso e falou com um pouco de dificuldade, mas nítido: "A Ia(forma que sempre chamou minha Tia Luiza) acabou de sair daqui". Tia Luzia já tinha falecido há 3 anos. Eu apenas sorri e olhei pra Tia Santa. Tia Santa no auge de sua sabedoria respondeu de forma bem serena olhando nos seus olhos: "Se ela estava aqui, ela vai voltar daqui a pouco." Minha avó acenou com a cabeça concordando. Será que era um sonho e ela confundiu com a realidade, ou será que a Tia Luzia estava com ela esse tempo?
Numa dessas visitas eu fui sozinho, ela se esforçava pra conversar, eu sempre esperei pra falar com o médico depois da visita e ele falou que ela tinha melhorado, que se continuasse evoluído, poderia ter alta em uma semana. Falei pra ela isso, ela tinha ficado feliz. Mas o médico tinha me alertado que paciente em UTI costuma ter altos e baixos, e que o quadro dela pela idade avançada era muito delicado. Nesse dia o caminho do hospital até o metrô eu fui chorando, há meses eu via minha avó, uma das pessoas que mais se dedicou a mim e minha família não podia levantar da cama, não podia comer nada, não podia sequer beber água. Que caralho que minha avó teria feito pra sofrer tanto daquele jeito? Ao mesmo tempo, aquela situação da minha avó, me fazia afastar a revolta que sentia da morte repentina do meu pai. Ali eu me perguntava se eu aguentaria ver meu pai numa situação parecida, o que era menos pior, morrer na casa dos 40, de repente, sem sofrimento, mas perdendo a oportunidade de aproveitar tanta coisa, ou na casa dos 80 sofrendo terrivelmente daquele jeito. Mãe e filho que se amavam tanto, tiveram um destino bem diferente. Eu só me arrependo naquela época de não ter agradecido minha avó por tudo. Hoje eu me arrependo muito de não ter dito ao menos Obrigado por toda dedicação dela à todos nós, em uma dessas visitas, infelizmente isso não passou pela minha cabeça na época.
Pra não deixar curioso quem leu até aqui, a criança da foto é a Gisele, neta de minha Tia Izabel, filha do meu primo Hélio, também já falecido. Infelizmente a pandemia levou a Gisele no final de 2020 com quarenta e poucos anos. Era uma prima que gostava muito, que sempre esteve por perto.
Todos os 9 irmãos foram enterrados no cemitério da Quarta Parada em São Paulo, no jazigo perpétuo da família. Que todos estejam em paz.