Tia Santa, acredita que justo essa noite, sonhei com a senhora?
O sonho foi bem surreal, estava num ônibus de Londres, sentado na janela do segundo andar, quando vi a senhora num jardim, sentada e conversando com algumas velhinhas. Muito rápido, mas era a senhora, não com o aspecto de seus últimos anos, mas como a Tia Santa da minha infância, bem disposta e falante.
Quando a senhora fez 100 anos, fiz um texto no meu Instagram, lhe dando os parabéns, aí a Dyma fez um comentário, dizendo que a senhora foi uma mãe para os sobrinhos. Acho que pelo fato dela nunca ter tido uma mãe presente, a considerava dessa forma.
Eu sempre achei a senhora mais que uma tia, era pra mim, uma espécie de terceira avó.
Mas creio que o que a Dyma quis dizer, é que a senhora tratava todos os seus sobrinhos, como filhos.
Toda vez que lembro de coisas da minha infância, a senhora sempre está por perto, tenho certeza que tive mais momentos marcantes com a senhora do que com meus avós, por exemplo. São tantos momentos engraçados, emocionantes e de ensinamentos que tenho com a senhora, que se citar tudo, só vou terminar amanhã. Mas vale a pena mencionar alguns.
Me lembro de um momento cômico de estarmos no carro, acho que eu estava no passageiro da frente, meu pai dirigindo, e a senhora junto com a minha avó atrás. Começou tocar no rádio uma música do Falcão, chamada Isaltina. A senhora começou a rir e imitar o Falcão cantando. Aquilo foi extremamente engraçado, eu sempre achei o seu senso de humor sensacional, tia.
E quando o Nivaldo, nosso vizinho da casa de baixo, começava a espirrar no quintal? Era um som que parecia estar dizendo a palavra Whisky. A senhora quando ouvia, sempre perguntava: "Com gelo ou sem gelo?" Era Hilário.
Mas lembro também de momentos tristes, estávamos na cozinha, minha avó e eu, a senhora foi atender uma ligação na casa da frente, pois ainda não tinha telefone na casa de trás, que era da minha avó. A senhora chegou contando com um semblante triste que o Tio Zé havia morrido. Minha avó começou a chorar, enquanto a senhora permaneceu serena, e me pediu para ir tomar banho, pois logo meus pais chegariam e iríamos nos aprontar para o velório.
Outro momento desses e bem mais intenso, foi quando a senhora me chamou na rua, estava na calçada da frente conversando com uns amigos. Eu entrei e a senhora me disse na cozinha, para eu me arrumar, pois meu pai havia sofrido um infarto, e estava correndo risco de vida. Esse foi o que ele se salvou, lá em 96. Eu fiquei desesperado, a senhora pediu pra eu ficar calmo, que daria tudo certo, acendeu uma vela e começou a rezar. Me lembro da cena perfeitamente,como se fosse hoje.
Quando passava as férias e os finais de semana na sua casa, a senhora sempre fazia o café da manhã, era diferente, pois a senhora fazia leite em pó pra eu tomar. Batia o pó com água, com um garfo, o leite molico, ficava todo cheio de espuma, eu achava aquilo um barato. Um dia que a senhora ia pro médico antes de eu acordar, a senhora deixou um bilhete me dando um tutorial escrito de como fazer o leite do jeito que a senhora fazia. A senhora tinha uma letra grande, bonita, gostava de ler as coisas corriqueiras que a senhora escrevia.
Há uns anos, tia, comecei a estudar a minha genealogia, pesquisar sobre meus ancestrais. Lembro de muita coisa que a senhora me contava sobre seus pais, meus bisavós. Mas hoje se as senhora estivesse por aqui ainda, seria muito mais objetivo nas perguntas e com a memória que a senhora tinha, com certeza me daria as respostas de tudo que a senhora sabia. Lembro quando me disse que a minha bisavó Rita, morreu em um hospital do Tatuapé, em 1964. Aí perguntei se seu pai tinha morrido da mesma forma. A senhora disse que não, que ele morreu em casa, em sua cama, rodeado pelos seus filhos.
Eu sempre admirei muito a sabedoria que a senhora tinha, sempre tive a senhora como uma matriarca da família, como uma mentora pra todos nós.
Mas me diga, Tia Santa, como estão todos por aí? Já fazem mais de dez anos que a senhora se foi, morreu meio triste, sem o pessoal que viveu contigo a vida inteira. Já deu tempo de encontrar todos? Seus pais, seus irmãos?
Falando nisso, pensei há um tempo que minha avó e meu pai, não viveram um único minuto de suas respectivas vidas, sem a presença da senhora. A senhora viu minha avó nascer e morrer, assim como viu meu pai da mesma forma. Ambos nasceram e morreram num mundo onde a senhora esteve presente. Louco né?
Dia desses falei com a Tide por mensagem no whatsapp. Disse pra ela, que eu era a Tia Santa da família, agora, por não ter casado, nem ter tido filhos. Mas longe de ver isso como algo negativo. A senhora viveu 90 anos, sendo amada e respeitada demais pela sua família, sem precisar disso. Quem a conhecia, lhe admirava muito. Nunca precisou de marido ou filhos.
Mas é isso, Tia, fico por aqui por enquanto. Continue aparecendo em meus sonhos, gosto muito das suas visitas, mesmo que rápidas. Espero que esteja em paz, junto dos seus e dos nossos.
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