sexta-feira, 16 de agosto de 2024

A Certeza Do Nunca Mais


Esse ano tem me feito refletir muito sobre o final de todos nós.

Desde que nos damos conta da nossa existência no mundo, tomamos ciência da nossa finitude. 

Vivemos como se ela não existisse. Vivemos como se fossemos imortais. Só pensamos na morte, quando perdemos alguém muito querido ou quando estamos em risco de vida.

A morte é implacável, ela não te dá uma segunda chance. Por maior que seja a sua fé, a partir do momento em que você morre, não tem mais jeito. Impossível reverter. A vida é tudo que conhecemos, mas ela é passageira, uns ficam mais, outros ficam menos, mas mais cedo ou mais tarde, a morte vai te encontrar. 

Com a morte você não negocia. Ouvimos em boa parte da nossa vida, jargões e clichês como: “ fulano escapou da morte” “Ciclano conseguiu sobreviver “ a verdade é que a única coisa que fazemos nestes casos, é adiar a morte. 

Quando dizem que você deve aproveitar a sua vida, é porque ela é muito curta. Ela de fato é passageira, diferente da morte, que é eterna.

Um dia ouvi minha avó me dizendo que era pra eu estudar, pra ser alguém na vida, porque: “A Vó vai pra outro mundo, e você se não estudar, vai ficar aí reclamando da vida por não ter dinheiro.”

Também me lembro de ter ouvido meu pai falando: “ Nessa vida, temos que acreditar em alguma coisa, um dia eu não vou estar mais aqui e você precisa se apegar em algo que tenha fé.”

Quando minha querida amiga Raquel se recuperou do câncer,  ela fez algumas lives pra algumas páginas do Instagram, naquela época da pandemia, além de algumas outras na página que criou chamada Oncomum. Mas numa dessas lives ela diz: 

“Quem morre é o câncer, a pessoa lutou tanto, resistiu tanto, que jamais morrerá! Vai ficar eternizada no coração de todos pelo seu legado.”

O que essas pessoas têm em comum, é que as vi falando abertamente sobre a morte, e hoje estou aqui, ainda vivo, registrando suas impressões sobre a morte, num momento em que não tinham ideia de quando iriam morrer. 

Existe o dilema sobre a morte, onde questiona se ela é pior para quem vai ou para os que ficam.

Eu posso dizer que depois de ver tanta gente querida morrer, nesses meus quarenta anos de vida, ela é terrível para quem fica. Dilacerante, pesadíssima, torturante. 

A morte é muito clara, não deixa dúvidas sobre sua presença, seja quando ela tiver que chegar. Mas ao mesmo tempo, ela é misteriosa. O maior mistério da nossa existência. Qual o nosso destino depois dela chegar? 

Tudo vai se apagar e nossa consciência jamais será acordada? 

Nascemos numa vida nova, logo depois que morremos? 

Acordamos num lugar sombrio e aterrorizante para pagarmos nossos pecados cometidos em vida? Ou despertamos em um lugar lindo, calmo, com anjos tocando arpas, para reencontrarmos as pessoas que fizeram parte da nossas vidas? 

A morte te faz acreditar no céu, no paraíso, no inferno, no umbral.

Particularmente, não tenho medo de morrer, na pior das hipóteses, morrer é o mesmo que antes de nascer. Nosso cérebro não consegue imaginar o que é o “nada” após a morte. Minha torcida é que possa acordar ou até ser acordado por algum dos vários entes queridos que já foram para o lado de lá. Seria o ideal.

Mas a pior parte da morte, é a certeza do nunca mais. Nunca mais vou ouvir a voz rouca da minha avó puxando papo comigo.

Nunca mais vou ser acordado pelo meu pai com travesseiradas num final de semana para ir almoçar com ele.

Nunca mais vou ter longas conversas com a Raquel sobre séries, filmes, política, ou qualquer outro assunto. 

Nunca mais vou ouvir as histórias da Tia Santa sobre nossa família.

A morte é a certeza de que não somos nada. É a ausência permanente. Quando todos que te conheceram em vida, também morrerem, ninguém vai ter qualquer tipo de memória sobre sua existência. 

A morte é isso, ela é o ponto final. Ela interrompe o futuro, acaba com a história de todos.

A grande maioria das pessoas acreditam na vida após a morte, por não aceitarem que a morte é o final de tudo. O conforto é ter fé que a pessoa que morreu esteja em algum lugar que ainda não conhecemos, mas que iremos de encontro, quando a nossa hora chegar.

Apesar de não ter medo, não acho que a morte deva ser romantizada. Por mais conflitantes que sejam meus pensamentos sobre esse tema, prefiro acreditar que nascemos e morremos por algum motivo, não acredito em coincidências. E se tive o privilégio de nascer, quem sou eu pra querer morrer? Quem sou eu pra buscar a morte? Ela que faça o trabalho dela! Eu sei que não vou conseguir fugir. Mas também não quero ir de encontro a ela. 

Mesmo sabendo que a nossa eternidade mortal chegará, viver é o que nos resta. As poucas décadas que temos, são pra serem vividas, deixemos a morte pra eternidade. 

A vida é a nossa realidade do presente.

A morte nos deixará no passado, mas ela é o futuro para todos nós!




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