Demorei um tempo pra começar a escrever esse texto, relutei um pouco, hora achava que deveria colocar isso no papel, hora achava que era algo que não deveria ser publicado. Não há nada demais ou de menos no que vou mencionar aqui, mas assim como a moça da foto escreveu no seu primeiro texto em seu Blog pessoal: "escrevo muito mais pra me ler do que pra ser lida." é assim comigo nesse Blog ou nas minhas redes socias, tudo que escrevo é muito mais pra eu ler meus pensamentos do que expor pra quem quer que possa ler um dia, então decidi escrever, talvez me ajude sair dessa angustiante sensação.
Há uns dias, uma grande amiga minha foi embora deste mundo. Quelzinha tão querida, tão inteligente, tão doce, tão linda, tão ativa, tão cheia de vida nos deixou, depois de uma longa batalha.
Minha história com a Raquel começa lá entre 2004 e 2005, por causa do Orkut. É incrível como as redes sociais naquela época eram muito diferentes do que são hoje em dia. Hoje eu fujo de posts, no máximo posto uns stories sobre algo que considero engraçado ou que tenha a ver com algum assunto que eu gosto e que não seja polêmico. Mas nessa época existiam as comunidades do orkut, e uma delas era de filmes, pessoas do Brasil inteiro postavam suas opiniões sobre determinado filme em tópicos diferentes e ali, que minhas ideias começaram a bater com as dela.
Dos papos nos tópicos dessa comunidade, passaram pra nos adicionarmos como amigos. Raquel era de Fortaleza, achava incrível naquela época conversar de forma instantânea por mensagens com uma pessoa que estava tão distante.
Óbvio que o fato dela ser uma mulher muito bonita, um sorriso lindo, simpática e carismática, me chamava a atenção, no auge dos meus vinte anos, mas a forma que ela escrevia suas ideias, formulava seus textos, dos assuntos mais banais aos mais sérios, me deixava fascinado. Sempre tive uma certa facilidade pra escrever, sempre gostei de fazer redação na escola, sempre gostei de postar minhas ideias na rede social da época, porque era algo que gostava e tinha um certo domínio. E ao conhecer melhor a Raquel, e não só suas opiniões sobre filmes, fez com que eu devorasse as coisas que ela escrevia. Ela era jornalista, tinha na época um Blog que deletou, e depois fez outro que apesar de abandonado lá em 2013, ainda está online, achei esses dias, corri pra printar os textos pro caso de tirarem do ar. Eu ficava fascinado com o quanto ela sabia usar certas palavras nada usuais corriqueiramente nas coisas que escrevia, aquilo me fazia aprimorar muito minha maneira de formular meus textos, nenhuma matéria de faculdade me fez aprender tanto quanto os diálogos escritos que tinha com ela, ou que lia em seus textos em suas redes.
Sempre conversávamos muito nessa época, no MSN e por depoimentos no Orkut, por algum motivo ela gostava de me contar coisas sobre ela, e eu também falava sobre mim. Era de fato uma amizade virtual, hoje um termo tão banalizado, na época era uma situação nova e muito legal de se ter. Lembro que até por telefone na época ainda caro pra outro DDD, chegamos a nos falar.
Passaram-se alguns anos, Raquel se casou, e veio morar em São Paulo, as redes sociais já eram outras, Messenger do face, WhatsApp, Direct do Insta… esse era o nosso canal. Mas claro, combinamos de nos conhecermos pessoalmente, num Starbucks na região da Paulista. Foi muito legal conversar por umas horas pessoalmente, ouvir sua voz sem ser por mensagem de áudio, foi muito bom, ela era bem extrovertida, um sotaque gostoso de ouvir, falava tão bem quanto escrevia.
Nosso contato sempre foi muito ativo, eu postava algo, ela comentava, depois vinha no WhatsApp ou no direct conversar sobre. Assim acontecia quando ela postava algo que eu comentava, basicamente era assim… “Renatinho, adorei aquilo que você postou.” e aí começava um debate de dias… Nossos assuntos nunca foram restritos, eu sempre tratei ela com um respeito enorme, nunca ultrapassei nenhuma linha que fizesse alguém pensar que tinha algum interesse diferente que não fosse pela amizade mesmo. Mas a gente se tratava com carinho mesmo, trocávamos elogios vez ou outra, mas nunca teve nada além disso, sempre valorizei o vínculo que a gente tinha.
Um determinado dia ela me manda um direct: “ Renatinho, é muito bom ser sua amiga por tantos anos, gosto muito dessa conexão que a gente teve durante esse tempo pelas coisas que escrevemos e lemos um do outro.”
Respondi que era recíproco o sentimento, falei o quanto as coisas que lia me inspiraram bastante e que sempre a considerei uma grande amiga mesmo só tendo contato pessoal uma única vez.
Alguns dias depois desse diálogo entendi melhor o porque ela mandou aquela mensagem, em outubro de 2019, ela me manda uma nova mensagem, dizendo que tinha feito uns exames de rotina e que teve o diagnóstico de câncer de mama… mas que descobriu bem no início, que ia começar o tratamento, mas que abriu isso pras pessoas mais próximas. O que fiz foi dizer palavras que vieram na hora, que ela era jovem, ainda com 32 anos, que daria tudo certo, e bastava ter fé naquilo que ela acreditava. O tempo foi passando, ela postava naqueles stories restritos a pessoas selecionadas, sua rotina de tratamento, suas fotos careca, eu comentava elogiando, e ela respondia sempre com bom humor, dizendo que não aguentava mais usar lenço na cabeça e que ia começar usar prótese capilar. Me lembro do texto que ela me mandou antes de divulgar no Instagram dela que iria postar sobre sua condição. Pediu minha opinião sobre o que achava. Era um texto impecável, mesmo num assunto tão complicado, me impressionava o quão bem escrito, claro e emocionante era aquele relato.
Seu tratamento deu muito certo, ela fez várias sessões de quimioterapia, radioterapia, e tirou os seios. Tudo isso em 2020, aquele ano onde não podíamos sair de casa com medo de pegarmos uma gripe e partir desta. Mas ali pra meados de 2021 ela estava curada, hiperativa, trabalhando, crosfiteira e muito feliz. Vi várias lives dela falando sobre sua condição, o quanto aquilo mudou sua vida e o quanto falar sobre aquilo poderia ajudar a vida de pessoas na mesma condição que ela tinha.
Infelizmente depois da segunda metade de 2023, a doença voltou e ela precisou voltar a fazer o tratamento. Em 2019 ela quase não sentiu o tratamento, seguiu trabalhando e treinando.
Mas dessa vez a doença veio de forma mais forte e sem muito tempo pra reação. Nossa última troca de mensagem foi em fevereiro, no seu aniversário. Se eu soubesse que ali seria a última vez, teria dito muito mais coisas pra ela.
Infelizmente no final do mês passado, recebi a notícia que ela tinha partido.
Até agora tem sido surreal, 37 anos, um cargo de gerente numa das maiores empresas do mundo, inteligente pra caralho, linda, sem vícios, disciplinada em exercícios físicos. Porque caralho isso tinha que acontecer com ela?
Lidar com a morte do meu pai quando eu tinha 18 anos e ele 43, me fez ter um pensamento parecido, de lá pra cá vi meus avós e tias avós partiram, mas com alguém jovem e que eu admirava muito, se torna algo impossível de aceitar. Isso me faz questionar a fé em algo superior, aonde está a tal justiça divina nessas horas?
Sei que tanta gente até mais jovem morrem todos os dias, mas quando é alguém próximo, o sentimento de tristeza e revolta aflora, vem à tona meu lado cético, que estamos nesse mundo por uma estúpida coincidência, que assim que nossa consciência desaparecer, não existirá mais nada, a não ser a breve memória naqueles que ficaram e assim que eles partirem, qualquer resquício da nossa existência terá acabado.
Eu detesto meu lado cético, detesto a ideia de não acreditar em nada. Mas aquilo que senti lá em 2002 quando meu pai morreu, eu voltei a sentir agora com a partida da Raquel. Não há comparação de importância do que foi meu pai e o que foi a Raquel durante minha vida, mas há uma similaridade no sentimento de choque e desconfiança em qualquer justiça divina.
Do meu pai, eu guardo as lembranças pessoais, vejo vídeos e fotos quando me bate alguma saudade.
Da Raquel, infelizmente não tenho mais acesso as mensagens do orkut, mas os directs e mensagens de WhatsApp fiz questão de salvar tudo que tinha, não sei até quando sua família vai manter sua redes online, então achei importante não perder os diálogos que tivemos nessas décadas, pra quando lembrar dela, ler algo que me faça tirar esse sentimento horrível de finitude de alguém que tive uma troca em boa parte da minha vida.
Talvez um dia eu tenha a resposta pra essa pergunta do titulo desse texto, talvez essa resposta seja dada pelas próprias pessoas que me fizeram formular essa pergunta. Mas por enquanto me resta seguir ignorando essa angústia.
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