Começo pela minha querida Avó Ozenia, ou como todos a chamavam, Dona Iracema.
Vó, já fazem quase 15 anos que não ouço a sua voz doce e rouca. O tempo passa rápido pra nós aqui, sabe? Claro que sabe, a senhora viveu por 82 anos aqui neste plano, então, entende muito melhor do que eu sobre como o tempo funciona por aqui.
Sabe Vó, eu nunca entendi muito bem lá na época que era criança, o motivo da senhora ter tanto amor por nós. Achava meio exagerada, aquelas demonstrações de carinho que a senhora sempre fazia questão de deixá-las em evidência.
Acho que hoje entendo esse jeito carinhoso que a senhora tinha, hoje entendo porque meu pai (seu filho) era tão apegado à senhora. Uma pena que passei a entender isso, em um período da minha vida que a senhora já não está mais por aqui. Lembro de um dia, algum parente se despediu abraçando todos nós, e eu, um adolescente tímido, fiz aquela cara pra senhora, e depois que ele foi embora, a senhora disse que era bom abraçar as pessoas mais próximas, e ainda disse que sentia saudades de abraçar seus irmãos José, Isabel e João, que já haviam morrido. Agora eu entendo essa vontade Vó, pois hoje, sou eu que queria te dar um forte abraço.
Vó, preciso te dizer também que digo a todos, que nunca comi nada mais saboroso do que tudo que a senhora preparava na cozinha, com tanto amor, cada almoço que a senhora preparava era feito com todo o amor que a senhora tinha por nós, e dava muito resultado, pois desde o arroz e feijão, até o bolo de prestígio, seguem insuperáveis, acho que nunca mais vou degustar uma comida tão boa quanto a que a senhora sabia fazer.
Como estão todos por aí Vó? A senhora segue inseparável da Tia Santa? Já recuperaram o tempo que ficaram afastadas por aqui? E meu avô? Segue te dando trabalho? A Tia Luzia que nos últimos tempos da senhora por aqui, costumava aparecer pra senhora, continua sorrindo o dia todo? Meu pai segue sempre por perto como foi a vida toda de vocês por aqui?
Espero que estejam todos em paz, todos bem, e me esperem, que um dia chegará a minha hora, não tenho pressa, mas tenho saudades, então espero que possam me esperar.
Eu nunca aceitei muito bem aqueles seus últimos noventa dias Vó, nunca entendi porque Deus deixou a senhora sofrer tanto tempo naquele leito de hospital, o que a senhora fez nesses 82 anos de vida pra sofrer tanto naquele final? Talvez a senhora tenha a resposta. Tiveram vários dias em que ia visitá-la e quando saía, chorava o caminho todo andando do Incor até a estação de metrô. Mas lá dentro eu sempre esperava pra falar com o médico após cada visita, mesmo sem ele nos dar esperança, dizia pra senhora que estava melhorando. Lembro que sempre me despedia com um beijo na testa, dizia pra senhora ficar com Deus, quando prontamente a senhora respondia pra eu ir com ele.
Seu neto sempre amou a senhora, apenas não sabia demonstrar com a sua mesma maestria.
Até algum dia, minha amada Vó Cema!
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