Fala seu Joaquim, como estão as coisas por aí? Queria muito saber onde o senhor está, será que já encontrou com o pessoal que foi embora deste mundo depois que o senhor?
Vira e mexe falamos do senhor por aqui, lembramos do seu chevette branco, tão judiado, por rodar São Paulo o dia todo em seu táxi.
Lembra quando o senhor subia todo final de semana a rua com uma garrafa dentro de um saco de pão e voltava com ela cheia? Era a 51 da semana garantida. Sempre misturada com groselha e açúcar. Como o senhor conseguia tomar isso todos os dias? E o Campari debaixo da pia? Engraçado eu falar assim, mas nunca te vi bebaço, acho que precisava da sua dose diária, sabendo que não podia passar disso.
Só que não adiantou muito né Quinkas? O senhor pegou um câncer hepático, justamente por causa dessa cachaça.
Mas é sério Vô, eu acho que hoje entendo o motivo do senhor chorar todas as vezes que nos via, depois do meu pai ter morrido. Creio que era um tipo de arrependimento, remorso ou algo parecido. Nunca vou entender a dor de perder um filho, mas a de um pai eu entendo, e estamos falando da mesma pessoa.
Caralho Vô, por que o senhor tratava tão mal ele? O que diabos ele te fazia pro senhor ter sido um pai tão horrível? Eu não tenho o que reclamar como neto, o senhor sempre foi bacana comigo e com meu irmão, mas pelo que soube, o senhor foi um pai terrível. Teve que prestar contas aí? Ainda está prestando ou já conseguiu o perdão?
De coração, eu espero que esteja num ambiente de paz, junto dos seus, pois por mais que sempre soube dessas histórias, minha memória afetiva com o senhor, não permite que eu nutra algum tipo de raiva, ao contrário do que meu pai sentia pelo senhor, seu filho né. Até levei algumas broncas, mas a maioria eu mereci.
Outra coisa Vô, comecei há um tempo estudar genealogia, a história da nossa família. A parte dos nossos ancestrais mais interessante até agora são as da sua árvore. Como eu queria perguntar pro senhor como era a sua avó Jacinta, que veio da Itália, e que o senhor a conheceu. E o seu Antônio? Pai do meu Bisavô Laurindo, e dona Elisa? Vi uma foto deles esses dias. Como queria que o senhor me contasse como eles eram em suas respectivas personalidades.
Poxa, uma pena o senhor ter ido embora aos setenta e dois anos, foi um câncer tão avassalador, que nem deu tempo de me despedir.
Mas é isso, fique e busque a paz por aí meu querido avô. Jamais te esquecerei enquanto estiver por aqui. Alias, toda vez que dou uma pigarrada, lembro do senhor, com aquele pigarro diário e característico.
Um beijo, e até qualquer hora!
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