Meu pai querido, finalmente consegui escrever essa carta pra você.
No momento em que escrevo, fazem vinte e dois anos e meio que você morreu.
Foi um susto tão grande quando recebi a notícia, parecia mentira, ou um pesadelo. Na verdade, ainda parece, a sensação que ainda tenho, mesmo com tantos anos depois do ocorrido, é que você vai aparecer a qualquer momento na minha frente, perguntando sobre o São Paulo, ou me chamando pra ir almoçar na Vó.
Eu queria ter conversado com você antes do seu cateterismo, sabe? Queria ter sido uma das últimas pessoas que você viu em vida. Mas não entendo até hoje, como não estive presente naquele dia. É como se não tivesse noção do risco que você corria, e não dei a devida importância para aquele momento. Se pudesse voltar no tempo, tentaria me despedir. Te dizer o quanto você foi importante pra mim, o quanto aqueles dezoito anos que tinha na época, foram incríveis por ter você sempre ao meu lado. Mas quis o destino que você fosse embora sem dar tchau.
Quando me dei conta, você estava deitado num caixão, na Quarta Parada, onde fui contigo tantas vezes em enterros de parentes. Nunca tinha passado pela minha mente, até então, estar presente no seu velório. Que coisa horrível, que situação tenebrosa te ver daquele jeito. Encostei a mão no seu rosto e só ali percebi que você, que sempre foi a pessoa mais importante pra mim, não tinha mais vida. Senti o frio que seu corpo estava e desabei a chorar. Vi até o momento em que desceram seu caixão até o túmulo, mas não vi fecharem a campa. Preferi olhar pra outra lado e sair de perto.
Você foi a primeira e possivelmente a minha maior perda da minha vida.
Naqueles últimos dias em que você esteve por aqui, nós três notamos algo diferente em você. Parecia que você vinha sentindo o que iria acontecer contigo. Você teve algum sinal, alguma premonição ou foi só uma impressão nossa?
Queria saber como você acordou, o que viu, o que sentiu. Tinha algum rosto conhecido por perto? Lembro que você dizia que gostaria muito de rever sua avó Rita depois que morresse. Foi ela? Seu avô Laurindo também já tinha falecido quando você foi embora.
Pelo jeito, você lutou bastante pra ficar, não queria ir naquele momento. A equipe médica nos disse que você chegou a ser reanimado quatro ou cinco vezes. Foi e voltou tantas vezes assim, provavelmente não estava aceitando aquele destino. Destino longe de nós.
Semanas depois você apareceu num sonho, parecia tão real. Sua aparência estava boa, seu olhar e seu gesto de que tudo ficaria bem, nunca saíram da minha memória. Você sempre aparece nos meus sonhos, nunca se ausenta por muito tempo. A maioria dos sonhos, eu não me lembro, mas sempre acordo sabendo que você esteve presente em alguns minutos do meu sono.
O mais marcante foi o que registrei num outro texto, você me disse que estava sempre comigo, e assim como em grande parte deles, eu tinha a consciência de que você estava no mundo dos mortos.
Mas falando nisso, você recebeu todos? Depois que você se foi, o Vô foi o primeiro. De todos nós, ele foi o que teve a pior reação. É como se tivesse numa depressão, onde parecia estar num sentimento de extremo remorso.
Conseguiram se entender por aí? Espero que sim. Não quero chegar e ver a mesma situação que via antes.
E a Vó? Deve ter sido um reencontro tão lindo de vocês dois. O amor que sentiam um pelo outro era tão forte, que devem ter ficado muito felizes ao se verem nesse plano. Ela me disse que a sensação que tinha depois que você morreu, era como se tivessem tirado um pedaço dela. Mas o sofrimento dela me parecia diferente, é como se ela tivesse a certeza de que logo estaria com você novamente.
E a Tia Santa? Ela ficou tanto tempo por aqui, que é muito estranho viver na ausência dela, sabe? Mas ela estava triste em seus últimos anos. Sentia muita falta da Vó, principalmente. Espero muito que ela esteja aí contigo, contando suas ótimas história.
Sabe o que não entendo? Por que você foi tão cedo. Por que você não viu a câmera digital? A explosão das redes sociais? O São Paulo ganhar a terceira Libertadores , o terceiro Mundial, o Tri brasileiro seguido.
Fico imaginando como estaria minha vida, se você ainda tivesse por aqui, nos seus 66 anos.
Você estava comigo em Londres? Me viu atravessando a Abbey Road nos três anos seguidos? Queria tanto que tivesse comigo naquela cidade.
Ainda vou pra Málaga, onde você sonhava conhecer. Apesar de não gostar tanto da Espanha quanto você, eu preciso pisar naquela cidade. Você tinha esse sonho e não teve tempo de realizar. Pelo jeito, tempo é o que mais tenho por aqui.
E nos dois shows do Paul McCartney? Poxa pai, nas duas vezes eu me lembrava tanto de você durante o Show. Imaginando você ali. Continuo mais fã do que nunca dos Beatles. Um legado que você me deixou pelo seu ótimo gosto musical.
Hoje eu já tenho 40 anos, meu pai. Não sei quanto tempo ainda me resta. Se eu morrer com a sua idade, me restam menos de 3 anos. Se morrer com a idade do Vô,tenho por volta de 35 anos pela frente. Se for com a idade da Vó, tenho um pouco mais de 42 anos. Ou se conseguir viver até a idade que a Tia Santa chegou, ainda me restam 50 anos.
Independente de quanto tempo ainda tenha, você é a pessoa que mais quero abraçar aí neste plano, nem quero saber onde você está, onde vamos nos rever. Só gostaria de ser recebido por você, que esteja presente na hora da minha passagem. Me espere, meu pai, é o que te peço.
Enquanto meu coração tiver batendo, eu sempre vou me lembrar de você com muita saudade e muito amor.
Você foi muita coisa pra mim, meu herói, meu exemplo… meu tudo. Incrível que só esteve por aqui, nos meus primeiros 18 anos de vida, já vivi mais do que isso desde que você partiu.
Apesar de sentir muito a sua falta, também sinto gratidão por ter vivido esse tempo contigo, foi um enorme privilégio.
Volto aqui mais vezes pra escrever pra você. Espero que continue aparecendo nos meus sonhos.
Eu te amo, meu pai querido!😍
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