sábado, 31 de agosto de 2024

Cartas Para o Além Pt5

Quelzinha querida, essa é a terceira vez que menciono você neste Blog. Na verdade, o motivo de ter criado essa série de textos, Cartas Para o Além é muito por sua causa. Uma amiga me deu a sugestão de escrever uma carta, como se você fosse ler, comecei com outras pessoas, mas sabia que em algum momento, chegaria em você.

Tanta gente querendo, tanta gente merecendo, tanta gente precisando morrer, e a morte chega justamente pra você, minha amiga querida. Justamente pra quem lutou tanto pra ficar viva. Só a luta que você travou nesses cinco anos, já te fazia merecedora de continuar por mais algumas décadas.

Nesses cinco meses, é como se minha mente estivesse em um furacão de revoltas, tentando entender o motivo de você ter nos deixado. Já contei nossa história de amizade, no texto com o título Por que tão cedo? Mas a primeira coisa que me causa frustração e tristeza na sua partida é que poderia ter te aproveitado mais. Você sempre foi muito receptiva, sempre me tratou como um grande amigo. Tantas vezes que você veio aqui na Mooca e me mandou mensagens… quantas vezes você me cobrava pra marcarmos o nosso café? Eu no auge da minha imbecilidade de não querer ser visto por ninguém, sempre desconversava. Como fui otário.

Por que antes do dia 23 de março, eu não tentava falar contigo? Faço essa pergunta toda vez que vejo algo que aconteceu antes da sua morte. Algo que fiz e que poderia ter trocado e tentado conversar contigo.

Vou citar três aspas suas aqui, em três textos sobre morte de pessoas próximas á você, que encontrei no seu Facebook, que até o momento, segue ativo. Mas dia desses acabei printando a maioria dos textos que eu curti, que você publicou por lá, pois como disse no texto quando você partiu, sempre te tive como uma referência, alguém que sabia escrever com maestria. Então precisei fazer isso, antes que alguém ou a própria Meta tire suas redes sociais do ar. Assim como já aconteceu com seu WhatsApp. Sempre passava pela minha lista e via sua foto. Há uma semana, notei que já não tinha mais, e seu número aparecia como se fosse pra te convidar para o aplicativo. Aquilo me deu um aperto no coração, é como se uma porta tivesse fechada pra sempre. Uma porta de comunicação que sempre tivemos.

“Eu não sei lidar com a morte. Não sei. Se eu pudesse ter uma audiência com Deus eu pediria que essa cláusula final da vida fosse revista. É sempre triste. É sempre pesado. É sempre trágico, independente das causas e circunstâncias. É sempre inesperado…”

Esse foi um trecho de uma postagem sua em abril de 2015, sobre a morte de sua tia-avó. É louco como esse e como os outros dois trechos que postarei na sequência, se aplicam á você hoje. Pelo menos no meu sentimento sobre a sua partida.

Com o perdão do gerundismo, minha querida amiga, eu não estou sabendo lidar com a sua morte há pouco mais de cinco meses. 

É tão louco, que é como se tivesse com uma ferida aberta no meu consciente, e não tenho ninguém pra me ajudar a curá-la. Não existe tratamento pra isso. Ontem mesmo, eu vi um trecho de uma conversa antiga no Messenger, onde você me dizia: “ Você é um fofo, é edificante conversar contigo.” Já mais recente tem alguns trechos no direct do Instagram, respondendo que “também gosto muito de você.” Ou no WhatsApp: “Te adoro muitão, também”.

Isso é que tenho na memória, sem ir atrás de outros papos que trocávamos esses sentimentos de carinho e amizade que tínhamos um pelo outro. 

Tem um filme com o Will Smith, chamado Beleza Oculta. Personagem dele perde uma filha ainda criança, para o câncer. Ele fica devastado. Quando ela estava em tratamento, ele chegou a pedir para alguma força divina, que fizesse uma troca, levando ele e deixando sua filha, mas essas tais forças não lhe ouviram. 

Pensei nisso dia desses, eu tenho todos os fatores de risco que você não tinha pra ter essa doença. Mas quem teve as células mutantes foi você. É inexplicável! É como se estivéssemos na idade média em relação a doença que te levou embora. Pois não há um único motivo pra você ter tido isso e eu não. Você merecia viver muito mais tempo do que eu, minha amiga. Na verdade, mesmo três anos mais nova, você viveu muito mais que eu. A intensidade em que você sabia viver, eu nunca vou sequer chegar perto, mesmo que eu dure mais 50 anos. Mas assim como o personagem do Will Smith, eu trocaria minhas células saudáveis pelas suas. Não hesitaria em um único minuto pra tomar essa decisão lúdica. É questão de merecimento, Quelzinha. Você merecia ficar e viver muito mais do que eu.

Mas pra que essa carta dedicada à você, não fique somente no drama da tragédia, eu juro que tento me divertir lembrando das histórias engraçadas que me contava. Como poucos dias antes de descobrir o câncer, você correu atrás do motoqueiro que te levou o celular na rua da sua casa. A cena narrada por você no meu WhatsApp me fez chorar de rir no dia, você era hilária, até nesses momentos. Você disse que só não correu mais,  porque um senhor te parou em frente a um boteco achando que iria desmaiar.

E quando vinha me perguntar, ainda solteira, qual foto pra capa do Facebook era melhor. Você sempre confiou na minha escolha. Dizia que eu era o dono do seu fã-clube. 

Lembro das danças engraçadas que postava nos stories e no dia seguinte vinha dizer que só eu mesmo pra achar algo bonito naquilo. Dizia com a voz de deboche, tirando sarro de si mesma.

Mas também lembro dos textos que me mandava antes de postar. Como um dos exemplos, que fez sobre assumir a doença, meses depois de me contar como uma das pessoas próximas que você abriu a sua condição. Me lembro de ter dito que apesar da notícia horrível, me sentia honrado por ter confiado em mim, para falar algo tão íntimo e grave. Você só respondeu: “ Você merece, Renatinho mais querido do mundo.” Eu amava o jeito que você me tratava.

 E quando você acabava com quem tinha coragem de discutir contigo nos comentários e depois vinha me perguntar se eu achava que você tinha sido muito ríspida com o infeliz. Eu ria muito do quão bem você argumentava. Lembro de umas três vezes isso no meu próprio Facebook, onde você comentava algo e vinha alguém te contrariar. Eu adorava suas tiradas. E isso acontecia várias vezes na sua timeline também. Eu sempre dizia que queria morrer seu amigo,mal sabia eu, que o sentido dessa frase seria trocado. 

Dia desses comecei ver uma série que me indicou por áudio no whatsapp, voltando da academia. Eu nem me lembrava de tal indicação. 

Cara, por que eu fui notar que você era tão importante pra mim, só depois que você morreu? Puta que Pariu, como isso me dói. 

Eu me pergunto sempre, por qual motivo eu sinto tanto a sua ausência? Por que hoje que você não está mais aqui, eu sinto tanto o fato de não poder mais interagir contigo? É inexplicável pra mim.

Como disse num outro texto, eu te admirava pra caramba, era como um ídolo, e ser chamado de amigo por um ídolo era algo sensacional, um orgulho absurdo. Vou te agradecer pelo resto da minha vida, por você me considerar seu amigo. Ter conquistado sua amizade, foi um dos maiores acertos da minha vida.

Não posso dizer que minha vida mudou depois que você se foi. Mas posso dizer que ela jamais será a mesma. Esse ano terrível eu bati dois recordes. O de chorar mais. Nunca fui o tipo chorão, mas atualmente, choro sozinho, sem ninguém saber. E choro até hoje. E o outro é que li o maior número de livros num único ano e ainda estamos em agosto.

Também fiz algo que jamais imaginei. Escrevi um livro. Mais de quatrocentas páginas. Um romance água com açúcar, provavelmente você não iria gostar. Pensei em matar um dos personagens, só pra agradar sua vibe de historias criminais, mas fiquei com dó. Agora que peguei o macete, mais pra frente escrevo outro com a sua cara.

E as três coisas, são sim, por sua causa. 

“Não se prenda ao nosso choro, é apenas muita saudade, muito amor, muitas lembranças, mas nós ficaremos bem. Então, pode voar. Vai ter com Deus e Nossa Senhora, que eu sei que é uma filha muito amada.”

Esse é o trecho de um texto seu, publicado em setembro de 2018, sobre a partida de sua avó. É incrível que o que aconteceu contigo, me fez questionar sobre justiça divina e vida após a morte. É um nó na minha cabeça. Como posso encontrar alguma justiça no que te aconteceu? Você já sabe qual foi o sentido disso? Eu vou morrer me fazendo essa pergunta, minha amiga. Por que Deus quis assim? 

Será que você despertou em algum lugar? Será que você está em paz, alheia ao que está acontecendo por aqui? Será que você está vendo e sentindo todo nosso pesar, desde que despertou? Será que você está em algum lugar, ou sua consciência se apagou pra sempre quando parou de respirar? 

Eu sei de uma coisa, minha querida amiga, sei que você era querida demais, por muita gente. Sei que eu era um grão de areia na sua vida oceânica. Mas sei que fui um grão de areia que você agradeceu por te fazer companhia numa noite que estava com insônia em sua casa em Fortaleza, me chamando pra conversar no Messenger. Um grão de areia que sempre me mandava áudios com indicações de séries e filmes. Um grão de areia que você lia, curtia e comentava as resenhas de filmes recém lançados no cinema. Um grão de areia que te indicou duas séries de terror que você amou e que veio toda esbaforida me contar o quão havia gostado de Residência Hill e Mansão Bly. Um grão de areia que te convenceu a voltar assistir The Crown e que depois que terminou, a primeira coisa que fez foi me mandar áudio agradecendo por te fazer acreditar quão boa a série tinha se tornado. Um grão de areia que você selecionou entre todos o seus contatos, para contar sobre sua doença e que seguia me incluindo entre poucos, que mostrava a rotina do seu tratamento. Qual grão de areia não se orgulharia de ser escolhido dentre os amigos mais próximos, pra te ver guerreira daquele jeito?

Eu gostava tanto de ser seu amigo, Quel, que já me bastava ser esse grão de areia, na imensidão que foi a sua vida.

Outra coisa que preciso te dizer. Eu sigo no instagran uma amiga sua e sua irmã, pois me lembro que na época elas tinham o perfil aberto, sei que foi numa foto que marcou num post as duas há muitos anos e acabei seguindo, por elas terem o perfil aberto. 

E há um mês mais ou menos, vi um story dela compartilhando o story da sua outra irmã. Esse story era de aniversário se não me engano, de seu pai. Estava sua irmã gravando seus sobrinhos, sua outra irmã e seu marido, cantando parabéns. Nunca tive contato com ele, mas sempre me pareceu te tratar muito bem, lembro que você falava bem dele, me contou sua história justamente no dia do roubo do seu celular. Vê-lo em Fortaleza com a sua família, me fez abrir o sorriso, senti que ele estava ali te representando. A cena me deu um baita conforto no coração no dia.

Ainda falando sobre sua irmã, no dia que fez quatro meses, eu postei um story do clip de Now and Then, aquela música dos Beatles que foi lançada no final do ano passado. Postei com a legenda do trecho onde traduzida pro português, diz que “de vez em quando eu sinto sua falta”. Além da legenda traduzida que aparecia no vídeo, postei embaixo suas iniciais, 4 meses e um coração branco. Várias horas depois, sua irmã postou um story de uma foto de vocês três juntas, dizendo que a saudade só aumentava após esses 4 meses e o mesmo coração branco. Achei aquilo uma espécie de sintonia. Sua irmã nâo me segue, nem deve saber que existo. Mas achei aquilo de dentre todas as cores disponíveis pra um coração, postarmos a mesma, algo intrigante. Me pareceu uma espécie de sintonia, algo que pode ser visto como coincidência pra maioria das pessoas. Meu lado cético também não me permite acreditar em coincidências. 

Diferente de mim, você era religiosa, e acreditava em signos. Me disse há poucos anos que a gente combinava a maioria dos nossos gostos, porque éramos de aquário. Claro que achei aquilo, uma grande bobagem, mas depois que vi esses corações da mesma cor no meu e no story de sua irmã, fiquei imaginando se não foi uma peça que a senhora quis me pregar. Só pra zombar do meu ceticismo,  fazendo nós dois escolhermos a mesma cor de coração. 

Meu momento é bem estranho, eu acredito em nada e em tudo ao mesmo tempo.

“ O câncer só levou o seu corpo, sua presença é viva, e sua energia ainda dança por aqui, suave e alegre, como você."

"O legado de amor é a única coisa capaz de nos eternizar no mundo, e eu senti vontade de dizer para todos que, graças a isso, você vive - radiante - em mim.”

Eu retirei esses dois trechos justamente do início e final de um texto que você postou em junho de 2020, sobre o aniversário de morte de uma amiga sua de Fortaleza, falecida de câncer em 2018.

Impressionante como se enquadra perfeitamente pro momento atual, sobre você. Uma coisa que é muito difícil pra mim, é nesses quase dez anos que moramos na mesma cidade, não tivemos um único amigo em comum.  Além do meu terapeuta, falei de você pra uma amiga e um amigo, mais ninguém. Queria muito um dia conversar sobre você, com alguém que te conheceu, alguém que sabe melhor do que eu, o quanto você era foda, alguém que entenda exatamente o motivo de você me fazer tanta falta. Porque falar isso pra quem não te conheceu em vida, é diferente, e pra mim, difícil de traduzir em palavras o que é exatamente a sua ausência.  Mas pra quem teve contato contigo, entenderá muito melhor, o quão absurdo é conviver com a sua ausência. 

É triste até finalizar esse texto, queria continuar escrevendo eternamente. Talvez te escreva mais vezes, coisas que nâo me vieram em mente agora. Coisas que eventualmente aconteçam e que eu queira te dizer. 

Por mais difícil que seja aceitar isso, a vida é para os vivos. E é o que tenho que fazer enquanto estiver por aqui. Viver!

Mas se você de algum lugar, estiver lendo essas palavras que escrevo... por favor Raquelzinha, me espere. Seja lá qual for a forma que você esteja, um dia estaremos no mesmo plano novamente e eu gostaria muito de ter ao menos uma única conversa contigo sobre a história da nossa amizade. 

Não quero parecer presunçoso. Como disse antes, sempre me considerei um grão de areia na sua vida. Mas tenho a sensação que essa conexão que tivemos por aqui, não foi por uma simples obra do acaso. A dor da sua ausência, é algo que não sei explicar o motivo dela ser tão intensa, por isso jogo pro sobrenatural, a causa de tanto pesar. Talvez essa não tenha sido a nossa primeira vida que nossos caminhos se cruzaram. 

Nesses meses, eu já criei inúmeros multi-versos na minha mente, e você está muito viva em todos eles, minha adorada amiga.

Apareça mais vezes nos meus sonhos, eu vou amar te ver novamente.












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